Vivienne Westwood: a rebelião que vestiu a história da moda


Foto: Divulgação

Antes de se tornar um dos nomes mais influentes da moda contemporânea, Vivienne Westwood começou à parte desse universo, movida não pelo que estava em voga, mas pelo que precisava ser confrontado, com um espírito revolucionário. No fim dos anos 1960, enquanto o movimento hippie dominava as ruas de Londres, ela e Malcolm McLaren, um dos grandes nomes da música e seu companheiro, voltavam seus olhares para a rebeldia crua dos anos 1950, explorando códigos de subculturas e tensionando normas sociais, aquilo que era conhecido como Teddy Boy na época, um estilo alternativo muito presente na subcultura de Londres associado ao rock. E foi assim que Vivienne começou sua “carreira” no universo da moda, criando roupas para Teddy Boy para McLaren.

Foi em 1971 que abriram a primeira loja na King’s Road, em Chelsea, um espaço que mudaria de nome, identidade e impacto diversas vezes, acompanhando e muitas vezes antecipando transformações culturais. De Let it Rock a Sex, e depois Seditionaries, o endereço se tornou um laboratório vivo onde moda, política e provocação coexistiam. Ali, camisetas com slogans incendiários e referências visuais chocantes não eram apenas roupas, mas manifestos. As constantes reconfigurações da loja refletiam um espírito inquieto, sempre em atrito com o establishment.

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Dois anos depois, “God Save the Queen”, dos Sex Pistols, grupo gerenciado por Malcolm McLaren, alcançou o topo das paradas. Nesse contexto, a loja foi rebatizada como Seditionaries, convertendo códigos de fetichismo, como tiras, zíperes e referências ao bondage, em linguagem de moda e impulsionando uma estética crua, de espírito faça você mesmo, que a mídia passaria a definir como punk. O impacto foi imediato. O que nascia como expressão underground rapidamente ganhava escala global, com a mídia batizando o fenômeno de punk, movimento que a consolidou como referência estética de uma época.

Com o esgotamento do punk e sua absorção pelo mainstream, surge um novo momento cultural que também atravessa o trabalho de Westwood, a chamada New Wave. Mais sintética, irônica e visualmente calculada, a new wave desloca a rebeldia do choque direto para uma estética mais conceitual, onde moda, música e imagem se entrelaçam com sofisticação. Westwood acompanha essa transição ao refinar suas criações, incorporando referências históricas, experimentações de corte e uma abordagem quase intelectual do vestir, sem perder o espírito provocador.

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Mas, para ela, nenhum movimento foi um fim em si mesmo. Ao longo dos anos 1980, passa a mergulhar profundamente na história da indumentária, reinterpretando silhuetas clássicas com um olhar radical. Sua estreia oficial nas passarelas com a coleção em colaboração com McLaren, Pirate, em 1981, marcou essa virada. Volumes inesperados, referências históricas e uma nova relação entre corpo e roupa sinalizavam o início de uma fase em que tradição e subversão deixavam de ser opostos.

“Só paramos para destacar inovações significativas; de resto, as ideias se desenvolvem e permeiam todas as coleções.’ ‘Pirata’, Outono-Inverno 1981/82, foi o primeiro desfile da marca. Inspirando-se na história da pilhagem e no Terceiro Mundo, a pesquisa focou-se em vestimentas históricas, mantendo os cortes originais como peças de moda. Inspiradas em padrões indígenas americanos, as calças ‘Pirata’ tinham um corte largo na parte de trás, em completo contraste com os hippies e as calças justas da época. A posição do pescoço, quando usada, era assimétrica” comenta a estilista. 

É também nesse momento de transformação que Vivienne se muda para a Itália aproximando-se da excelência da manufatura italiana e iniciando uma nova etapa em sua carreira. A produção passa a dialogar com técnicas mais refinadas, sem abrir mão da experimentação conceitual que sempre guiou seu trabalho. Essa mudança não suaviza sua linguagem, mas a aprofunda.

Foto: Getty Images

Nesse período, suas coleções transitam por territórios diversos, da arte moderna à cultura indígena, da alfaiataria britânica ao sportswear, sempre com uma abordagem experimental. As peças eram construídas a partir de cortes geométricos simples, testadas em pequena escala e refinadas até ganhar forma definitiva. Mais do que vestir, suas criações buscavam provocar reflexão.

Símbolos também tiveram papel central. O icônico orb, que mistura referências à monarquia britânica e ao futuro, sintetiza essa dualidade entre passado e reinvenção. Já o uso de imagens controversas, como na famosa Anarchy Shirt, reforça seu compromisso em questionar estruturas de poder e valores estabelecidos.

Em 1980, a loja na King’s Road foi rebatizada como Worlds End, nome que permanece até hoje, quase como uma cápsula do tempo. O espaço preserva a estética original concebida décadas atrás, ecoando a ideia de que, para Westwood, a moda não segue o tempo, ela o desafia.

Vivienne Westwood construiu um vocabulário visual que atravessa gerações. Do punk à new wave, sua obra prova que vestir-se pode ser, acima de tudo, um ato político e que a moda, quando nasce da inquietação, nunca é apenas superfície.




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