Às vésperas de completar 25 anos de marca, a estilista fala sobre expansão internacional, Nova York, bordados e os caminhos que transformaram a PatBo em um negócio global. Foto: Pedro Bucher
Por Eduardo Viveiros
No terraço de sua sala na grande boutique nos Jardins, em São Paulo, Patricia Bonaldi pergunta se a conversa das próximas linhas poderia correr em meia hora – “É que eu tenho uma reunião às 14h…”. Uma hora e meia depois, está na galeria de fotos do celular, mostrando entusiasmada sua Aurora, a recém-nascida… cabra. Esse tipo de reviravolta-relâmpago parece ser o esporte favorito da estilista-empresária mineira: muda de direção no meio da conversa assim como no meio da vida. E é mestre em acertar no timing.
Patricia fundou sua marca em 2002, quando voltou do Japão para Uberlândia com o então futuro marido e sócio. Tinha passado uma temporada trabalhando em chão de fábrica e, talvez, não imaginasse a dimensão do sucesso que, hoje, a faz comandar uma empresa que desfila na semana de moda de Nova York, já vestiu Beyoncé e coleciona lojas pelo mundo. “Pat” é conhecida tanto como “a rainha dos bordados” quanto como “a rainha do glamour de beira da piscina”. Depende para quem (e onde) você pergunta.
Seu trajeto foi inverso ao convencional na moda: da empreendedora, surgiu a estilista. Ela tinha uma multimarcas própria em Uberlândia e, depois de ver o fiasco, inventou a sua roupa sob medida. “A parte criativa veio para salvar a empresária e, em um ano, a marca Patricia Bonaldi virou desejo em Uberlândia. Faziam fila para os vestidos”, conta. Deu tão certo que virou problema: o volume de encomendas a levou à exaustão física e emocional – e ela admite sem procurar eufemismos. A saída foi seguir a intuição e transformar o ateliê individual em uma marca de coleções. Assim, nasceu a designer que não larga a mão do produto.
Às vésperas de completar 25 anos de marca, a estilista fala sobre expansão internacional, Nova York, bordados e os caminhos que transformaram a PatBo em um negócio global. Foto: Pedro Bucher
“Timing é uma das minhas melhores qualidades”, garante. “É realmente muito natural. Já deve ter dado errado, mas, normalmente, eu acerto.” É um instinto que se provou (mais uma vez) em setembro passado, na hora de balizar uma coleção às vésperas de virar assunto na semana de moda de Nova York.
“Falei que ia aproveitar o momento de ódio contra os imigrantes latinos e fazer o meu statement”, conta sobre Latin Soul, seu desfile de verão 2026 com bordados, franjas e referências oitentistas. Por pouco, os 38 looks anteciparam o boom da latinidade encabeçada pelo furacão Bad Bunny.
Seu golpe de timing mais ousado, porém, não tem a ver com desfile, mas com sua assinatura. Há pouco mais de 15 anos, ela decidiu escondê-la. “O nome ‘Patricia Bonaldi’ vai envelhecer, é natural. Já ‘PatBo’ não vai envelhecer nunca. É forever young! Consigo remodelar a marca da maneira que quiser.” Poucas marcas têm coragem de liquidar o próprio nome-fundador no auge… Normalmente, elas morrem agarradas ao dono. Patricia preferiu o enterro em vida.
“Foi uma pequena loucura, mas deu mais do que certo. Tenho zero apego e fiz sem dor alguma.” Valeu a pena. Hoje, a PatBo vende em mais de 30 países, é a única brasileira a desfilar em NY e a primeira a fazer um takeover a convite do hotel Four Seasons: em janeiro passado, tropicalizou o rooftop da unidade de Miami com uma estampa feita à mão. O que era para durar três meses, agradou tanto que vai ficar até o próximo verão – e abriu conversas com outras unidades da rede. Recentemente, seu universo de lifestyle ainda abriu pop-ups em Portofino e Saint-Tropez. Ela explica: nos últimos três anos, as vendas na Europa triplicaram!
Às vésperas de completar 25 anos de marca, a estilista fala sobre expansão internacional, Nova York, bordados e os caminhos que transformaram a PatBo em um negócio global. Foto: Pedro Bucher
Ainda assim, Patricia se recusa terminantemente a vender roupa casual. “Não é para mim. E olha que eu até já tentei. Mas nada que já fiz de básico vendeu. Não é o que a nossa cliente quer. Eu não ofereço um terninho para ela ir trabalhar, sabe? Assino o vestido do aniversário, das férias em Ibiza, do pré-casamento.” A armadilha está na expectativa: o produto tem que estar conforme o que essa cliente espera.
Recentemente, na Riviera Francesa, ouviu de compradoras europeias algo que ela guarda como troféu: “a sua roupa tem um preço muito justo pelo que é”. Repete a frase como quem repete um diagnóstico médico favorável. “Se você não tiver um produto vencedor, que fala por si mesmo, vai ser difícil sustentar o resto”.
O bordado, garante, não é estratégia, mas caso amoroso. Ele pode estar menos ou mais presente em coleções diferentes, mas não vai sair de cena. “Eu não consigo pensar em não bordar alguma coisa. É muito automático para mim, muito afetivo”, diz. Desde 2015, a PatBo mantém uma escola de bordado em Uberlândia para formar artesãs locais, e é nessa mesma cidade natal que a dona se recarrega e bota o pé no chão. “Eu vendo o luxo sem ter vindo dele”, reflete misteriosa.
A régua muda quando o assunto vira sala de reunião. Ela lembra bem da fase em que precisou sentar-se à mesa com gente formada em universidades renomadas, ouvindo termos que nunca havia escutado na vida. “Os caras conversando comigo, botando todas essas nomenclaturas difíceis. E eu ali, a gatinha de Uberlândia”, ri. A saída, sempre que travava, era simples e sem vergonha: “Tenho que falar: espere, vou ali aprender… e volto falando em dobro”. Hoje, se diz capaz de assumir o cargo de CEO de qualquer marca de moda. Só não quer, porque já tem a própria.
Fora do Brasil, vive o alívio de ser apenas a autora. Numa viagem de avião nos Estados Unidos, uma passageira reconheceu a calça jeans bordada que Patricia vestia, antes de reconhecer a criadora. “Ela não fazia a mínima ideia de que eu era a estilista”, conta, encantada com o anonimato. No Brasil, é o contrário: o rosto chega antes da roupa e o negócio de vestir gente famosa convive, sem muito conforto, com a vontade dela de aparecer pouco.
Às vésperas de completar 25 anos de marca, a estilista fala sobre expansão internacional, Nova York, bordados e os caminhos que transformaram a PatBo em um negócio global. Foto: Reprodução
Só que há duas Patricias – e ela sabe disso melhor do que ninguém. Existe a que assina campanha, atende jornalista e posa com naturalidade para o conteúdo porque “é bom para o negócio”. E existe a que preferiria ficar invisível: “eu gosto do produto e de quem faz o produto. Sou mais estrategista do que personagem”, diz quase se desculpando.
Seu time discorda. Aliás, garante que, quanto mais Patricia Bonaldi veste PatBo, mais as vendas crescem. Por vezes, ela acaba cedendo: “Não menosprezo o efeito porque sei que faz bem para o business. Mas se eu pudesse fazer menos, eu faria”.
Pode soar contraditório para quem vê de fora, mas a mulher que construiu um império sobre a fantasia mais glamourosa possível insiste que seu mundo real fica é no chão de fábrica, com o cabelo amarrado e sem grandes maquiagens. Nos Jardins paulistanos, bate ponto presencial apenas uma vez por semana. Seu coração bate forte mesmo é no ateliê no Bom Retiro, com as costureiras, as modelistas, os rolos de tecido… É onde diz sentir que “estou fazendo o que tenho que fazer. Se eu estiver longe do produto, começo logo a entrar em pânico”.
Às vésperas de completar 25 anos de marca, a estilista fala sobre expansão internacional, Nova York, bordados e os caminhos que transformaram a PatBo em um negócio global. Foto: Divulgação
Produto, produto, produto. A palavra é corrente nas falas de Patricia. É onde ela se agarra e se garante, prestes a completar 25 anos de trajetória em 2027: “ele já me salvou em vários momentos, é minha grande fortaleza”. Nada disso veio de sócio misterioso ou fundo endinheirado. “Toda vez que recebi dinheiro, eu estava devendo o dinheiro”, relata sobre os aportes que sempre foram empréstimos de banco. Nunca teve um “investidor sério”, nunca alguém que desse “grana” sem cobrar de volta.
A palavra “sobrevivente”, que ela usa sobre si mesma, não é força de expressão: afinal, é suado manter um negócio grande bancado pelo próprio caixa, sem grupo de private equity, nem associado internacional por trás. Ainda mais que agora ela tem uma baby cabra de dois quilos para alimentar, afinal.
Aurora, filhota de Julieta (cabra matriarca), vive no sítio de Patricia, nos arredores de São Paulo, ao lado de jumentos, coelhos e pavões. O lugar é sua nova paixão, destino de todo fim de semana livre e que define uma outra versão sua. “É onde eu me regulo emocionalmente para aguentar o próximo tranco.”
