Chloé – Foto: Divulgação
Existe uma tendência que nós, brasileiros, conhecemos muito bem. Antes de aparecer nas passarelas internacionais, nas vitrines de grandes grifes e em vídeos do TikTok, a estética jelly já fazia parte do nosso imaginário – e a Melissa tem muito a ver com isso. Criada em 1979, a marca brasileira ajudou a transformar o plástico em matéria-prima de moda, fazendo de sandálias translúcidas, coloridas e de acabamento brilhante um verdadeiro fenômeno cultural. Décadas depois, o material continua no centro da identidade da marca, que hoje reúne de calçados a bolsas dentro do universo jelly.
Melissa – Foto: Reprodução/Instagram/@melissaoficial
Agora, essa linguagem retorna ao radar internacional com força renovada. Para o verão 2027, a estética aparece como uma das apostas de comportamento da temporada e ganha interpretações que vão muito além da clássica sandália de plástico. O efeito translúcido chega a sapatilhas, bolsas, óculos e acessórios e transita entre propostas bastante diferentes: das passarelas de luxo aos produtos de grande alcance, mostrando como uma mesma estética pode assumir leituras sofisticadas, esportivas, divertidas ou completamente nostálgicas.
Giorgio Armani – Foto: Getty Images
Na passarela, a estética ganhou interpretações mais sofisticadas. Giorgio Armani foi um dos nomes que levou essa atmosfera para os acessórios, explorando peças transparentes, superfícies luminosas e um aspecto quase líquido em sua coleção de verão 2026. A linguagem também apareceu na The Row, que incorporou elementos translúcidos ao seu desfile com os jelly shoes provando que a tendência pode transitar até mesmo pelo território do luxo mais minimalista. No masculino, Saint Laurent também criou calçados de material transparente, distanciando o plástico da imagem tradicional com um twist de estranheza.
São movimentos diferentes, mas que apontam para a mesma direção: o plástico translúcido deixou de ser apenas um detalhe funcional ou associado ao universo infantil e passou a funcionar como recurso de design. E, como costuma acontecer na moda, aquilo que aparece nas passarelas rapidamente encontra eco nas ruas, nas vitrines e nas redes sociais.
Um dos exemplos mais comentados é a criação da Skims, marca de Kim Kardashian. Os Jelly Shoes, completamente transparentes e com os pés expostos, dividiram opiniões desde o lançamento. Para alguns, o modelo disruptivo virou um novo item de desejo; para outros, a ideia de sair de casa com o pé completamente à mostra é difícil de assimilar. A polêmica, porém, faz parte do próprio fenômeno em chamar atenção.
Jelly Birkin – Foto: Getty Images
Agora, se a Skims levou a estética para o território do pop, as chamadas Jelly Firkins transformaram um dos maiores símbolos do luxo em fenômeno da internet. Inspiradas na silhueta da Birkin, da Hermès, as bolsas de plástico translúcido e colorido ganharam as redes sociais e se tornaram um dos objetos mais comentados da atual onda jelly. No TikTok, os modelos aparecem em diferentes cores e versões, muitas vezes customizados com charms e correntes, reforçando o caráter divertido e pessoal do acessório. O resultado é uma peça que combina a referência ao universo do luxo com a irreverência do plástico e a lógica de personalização que domina a moda nas redes. Um produto que resume muito bem o desejo dos jovens. E existe humor nessa escolha – além de uma certa ironia em relação à própria lógica de status da moda. Exemplo perfeito de uma geração acostumada a reinterpretar símbolos de luxo na internet.
Pop Up Gentle Monster – Foto: Divulgação
É também aí que a Jelly Fever deixa de ser apenas uma tendência de material e passa a revelar um comportamento. Depois de temporadas marcadas pelo minimalismo, pelo quiet luxury e por uma estética bastante racional, existe espaço para uma moda que quer brincar. Transparente, colorida, brilhante e quase caricatural, o jelly introduz um elemento inesperado na produção e recupera uma relação mais leve com o vestir.
Há ainda uma dimensão sensorial nessa estética. As superfícies translúcidas, os tons vibrantes e o acabamento glossy remetem a balas, geleias e doces, criando acessórios que parecem quase comestíveis. A associação não é apenas visual: são objetos que despertam vontade de tocar, experimentar e carregar. É uma moda que aposta no desejo provocado pela aparência, pela textura e pela memória.
Zaxy – Foto: Divulgação
A nostalgia também está presente, mas não como uma reprodução literal dos anos 1990 e 2000. O que retorna é uma sensação: a dos objetos de plástico, dos brinquedos coloridos, das transparências e de uma estética glossy que marcou aquela época. Ao mesmo tempo, a tecnologia do material e sua aparência quase futurista dão às peças uma nova leitura. É passado e futuro ocupando o mesmo objeto.
A estética também chegou aos acessórios de maneira mais ampla. A Gentle Monster, por exemplo, já havia explorado esse universo em 2024, quando apresentou a Gentle Jelly, coleção de óculos inspirada no aspecto translúcido e colorido das balas de gelatina. O exemplo é importante porque mostra que os sinais da tendência já apareciam antes de sua atual explosão.
Entre o luxo e o TikTok, entre a nostalgia e o futurismo, a Jelly Fever traduz uma mudança de humor na moda. E mesmo sendo polêmica, tendo quem ame e quem odeie, a tendência vem com força para a próxima estação.
