Primeira top model brasileira, ela trabalhou com Schiaparelli, Dior e Chanel e, nas últimas décadas, reposicionou a própria história como atriz. Foto: Arquivo Harper’s Bazaar
A moda e a cultura brasileira perdem uma personagem que não cabe numa legenda pronta. Vera Valdez morreu nesta quarta-feira, 14 de janeiro, aos 89 anos. Para muita gente, ela foi a primeira top model brasileira em um circuito que, nos anos 1950, ainda parecia inacessível para mulheres do país. Para outros, ela foi atriz, presença de palco, alguém que preferiu ser lembrada pelo que fazia em cena, não pelo que vestia em fotos antigas.
Vera nasceu Vera Barreto Leite e viveu o tipo de percurso que costuma virar mito, mas que, no caso dela, foi trabalho mesmo. Ainda jovem, foi para Paris, entrou no circuito da alta-costura e passou por Elsa Schiaparelli e Christian Dior. Depois, veio a Chanel. Ela estava lá no retorno de Coco Chanel ao calendário, na primeira coleção dessa volta, e isso virou um dos pontos centrais da história que ela carregou por décadas.
Vestido Carolina Herrera, brincos Beatriz Werebe e mule René Caovilla – Foto: Fabio Bartelt, com edição de moda de Rodrigo Yaegashi e beleza de Helder Rodrigues
Quem conviveu com Vera nos últimos anos insiste num detalhe: ela não era só um capítulo da moda, era uma pessoa com memória ativa, com vida social, com humor, com vontade de controlar o próprio roteiro. O curador e consultor de arte Danniel Rangel, amigo dela, fala disso como quem sabe onde a história encontra o cotidiano. Ele conheceu Vera em Paris e lembra como o nome dela circulava entre franceses ligados à maison.
Rangel se aproximou de Vera por meio da filha dela, fez uma entrevista, e a relação virou amizade. “A gente ficou super amigo”, ele diz. A partir daí, começou um trabalho que ajudou a organizar a memória desse período francês, não para criar uma lenda, mas para preencher lacunas. “Eles não tinham tanto material sobre as manequins daquela época”, ele afirma ao contar que a equipe da Chanel gravou depoimentos de Vera, hoje preservados como parte do arquivo histórico da maison. Ao falar do vínculo entre Vera e Coco Chanel, Rangel não suaviza. “A Chanel ficou louca por ela”, diz, descrevendo uma relação que ele define como “quase de filha”.
Danniel Rangel e Vera na exposição “The Little Black Jacket”, em São Paulo, em 2013. Foto: Acervo.
Essa dimensão afetiva explica por que Vera não aparece apenas como manequim em fotos antigas. Ela era parte de um ambiente, de uma rede, de um período. E esse nome ainda abria portas décadas depois. “Quando eu falava o nome dela, todo mundo vinha para o jantar”, lembra Rangel, citando reencontros e amizades de um circuito que misturava moda e cinema.
O retorno de Vera ao Brasil não encerrou o assunto. Ela atravessou outras linguagens, esteve ligada à televisão, ao cinema e, principalmente, ao teatro. O Teatro Oficina virou uma base importante nessa virada, e Vera passou a insistir em como queria ser reconhecida. Não era nostalgia, era escolha. Ela mesma dizia que, dali em diante, queria ser chamada de atriz. Uma decisão de identidade, não de currículo.
Rangel descreve a relação dos dois com um tipo de intimidade que explica essa Vera fora da moldura da moda. “Nossa relação era muito forte, de rir no telefone, falar bobagens e coisas sérias, política, tudo”.
E diz que falou com ela pouco antes de sua morte. A voz estava fraca, e o pedido foi direto. “Vem me ver, Daniel. Vem me ver porque você não vem ao Brasil há muitos anos”.
Vera Valdez usa jaqueta e calça Levi’s, camiseta basico.com. tênis Converse e pulseira de mão Yeprem para Beatriz Wereb. Foto: Fabio Bartelt, edição de moda de Rodrigo Yaegashi, beleza de Helder Rodrigues e tratamento de imagem Doctor Raw
Há também uma cena recente que ajuda a entender por que Vera continuava sendo Vera, sem esforço. Quando fez capa e editorial para a Bazaar, foi Rangel quem aproximou os contatos. No estúdio, cedo, ela pediu café com uísque. A reação virou anedota, mas também retrato. “A Patrícia achou aquilo chiquérrimo”, ele conta, antes de repetir a frase que ouviu e que funciona como resumo de presença. “A mulher mais chique que eu conheço no Brasil é a Vera.”
Vera Valdez deixa uma história que começa na alta-costura e termina com uma espécie de ajuste fino da própria imagem. Não porque a moda não bastasse, mas porque ela sempre foi um pouco maior do que o lugar onde tentavam colocá-la. E, para quem acompanhou de perto, fica a sensação de que também se perde um pedaço de uma Paris que já não existe. “É uma turma de Paris que está indo embora”, diz Danniel Rangel.
