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Em Pindamonhangaba, a estilista Ana Clara Watanabe transformou o sítio da família em um laboratório vivo onde moda, cultura e sustentabilidade se encontram. É, ao mesmo tempo, um endereço de criação e um portal para o passado — resgatando a ancestralidade japonesa da família paterna.
Essa reconexão começou com o shinrin-yoku, a filosofia japonesa do “banho de floresta”, que convida à cura e ao equilíbrio por meio da imersão na natureza. “Quando conheci o shinrin-yoku, estava em tratamento para ansiedade e me encantei com o processo. Comecei a trazer o trabalho para o sítio, a respirar o ritmo da natureza, e isso mudou completamente a forma como crio”, conta a diretora criativa.
Foi dessa imersão que nasceu o projeto Agrofloresta WTNB. Mais do que plantar algodão, o objetivo é criar um ciclo regenerativo, devolver à terra e inspirar uma cadeia de moda mais consciente. Parte da produção será doada, e a linha exclusiva feita com esses tecidos manterá escala intencionalmente reduzida. “A nossa produção nunca vai ser grande o suficiente para gerar uma quantidade absurda de peças. E tudo bem. O valor está no processo, não no volume.”
O sistema agroflorestal é um modelo de cultivo que integra árvores, plantas agrícolas e, em alguns casos, pastagens, imitando o funcionamento de um ecossistema natural. Ao contrário do monocultivo, que empobrece o solo, a agrofloresta promove biodiversidade, protege contra a erosão, melhora a infiltração de água e cria microclimas favoráveis ao crescimento saudável das plantas. Na prática, isso significa que o algodão da WTNB cresce lado a lado com outras espécies, em um ambiente que se autorregenera. “O plantio é pensado para que cada planta beneficie a outra, como acontece na própria natureza. É um cultivo que devolve mais do que tira”, explica Ana. Tudo isso se conecta à ancestralidade e à história de seu avô, que plantava tomates naquele sítio há muitos anos, e à cultura japonesa.
O plantio do algodão é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio, explica Ana, está na fiação e na tecelagem. “Quanto maior a escala, mais caro fica o produto. Então, manter o tamanho certo é também uma decisão para preservar controle e qualidade.”
Foto por Blinia – Divulgação
A WTNB tem construído uma cadeia produtiva ética, descentralizada e bem remunerada, com mão de obra fora do eixo São Paulo. Sua comunidade sabe que não encontrará araras cheias de peças acessíveis, mas sim criações raras, feitas com tempo e intenção. “Os nossos clientes não compram só o produto. Eles compram a filosofia da marca. Eles entendem a diferença de tecido, reconhecem o valor de uma fibra natural”, conta Ana Clara à BAZAAR.
Todo esse projeto tem sido 360º — do plantio mais consciente à produção e à comunicação final nas redes sociais e campanhas —, com foco em criar narrativas visuais que unem estética e transparência. No Instagram e no site, a rotina no campo, o crescimento do algodão e as texturas da natureza viram registros autorais que aproximam o público do processo. A proposta também busca ampliar o polo de moda para além da capital paulista e oferecer peças com menor impacto ambiental, considerando toda a cadeia e seus colaboradores.
Visitar o sítio é compreender que a WTNB não cria apenas roupas — cria um tempo diferente para a moda. Entre árvores antigas, fileiras de algodão e o silêncio interrompido apenas pelo som do vento, a marca costura, ponto a ponto, o elo entre a terra, a cultura japonesa e o design autoral. “O design é a tradução dessa filosofia. O cliente não veste só um tecido, veste uma história”, resume Ana.
No interior de São Paulo, a WTNB planta mais do que algodão. Planta ideias, memórias e futuros possíveis — e prova que, quando se cultiva com propósito, a moda pode ser tão perene quanto as raízes que a sustentam.
